Avaliação da Linguagem Oral Infantil: Quais Instrumentos usar?

A avaliação e uma etapa essencial na prática fonoaudiológica, ela auxilia no diagnóstico diferencial, a compreender os aspectos que regem a comunicação de cada indivíduo e ainda são a base para boas intervenções. Por isso é de extrema importância que essa etapa seja feita cuidadosamente, com a escolha de roteiros ou instrumentos adequados, com uma aplicação assertiva e por fim, com uma boa análise e interpretação dos resultados que possibilitará o fonoaudiólogo a desenvolver um bom raciocínio clínico para aquele caso.

Avaliar a linguagem não é tarefa simples. A linguagem é complexa por si só! Em primeiro lugar é fundamental ter em mente que ela é composta por diferentes aspectos relacionados a forma como se estrutura e a forma como é utilizada. Cada um desses aspectos desempenha um importante papel de forma individual, mas é na integração entre eles que a linguagem acontece nos tornando seres sociais e permitindo a troca de informações, a expressão de sentimentos e a comunicação como um todo.

Uma boa avaliação em linguagem infantil, deve então, contemplar aspectos fonológicos, morfossintáticos, lexicais, pragmáticos e outra série de habilidades, como, por exemplo as sociais, que irão determinar se uma criança utiliza a linguagem de forma coerente com sua faixa etária ou se seu desenvolvimento está aquém do esperado. Para que isso seja feito, o Fonoaudiólogo poderá utilizar diferentes métodos e recursos selecionados de acordo com a faixa etária e habilidades de linguagem da criança.

Podemos considerar, de forma global, duas possibilidades de avaliação: uma informal na qual, a partir de uma contexto não estruturado o Fonoaudiólogo irá observar a criança e coletar informações a respeito dos diferentes aspectos da linguagem buscando correlacionar com os dados de desenvolvimento típico para cada uma delas, e uma formal na qual ele poderá lançar mão de instrumentos padronizados, que envolvem contextos estruturados a fim de se levantar tais informações. Fato é que as duas formas de avaliação são complementares e, o ideal, seria ter espaço para a realização de ambas.

Observar a criança em contexto não controlado, durante atividades lúdicas, na interação com seus pais ou outras crianças fornece informações fundamentais que somente esse cenário poderia proporcionar. Por outro lado, o uso de instrumentos padronizados ajuda a traçar um perfil mais específico do desenvolvimento da criança em cada um dos aspectos da linguagem. Fica mais fácil estabelecer um paralelo entre o desenvolvimento da criança e o que é esperado para sua faixa etária uma vez que a maioria dos instrumentos fornece os dados de normalidade. Por fim, a reavaliação a partir desses recursos permite ainda acompanhar o desenvolvimento da criança ao longo do processo interventivo, uma vez que fornece dados mais específicos. 

Pensando nisso, TK reuniu os principais instrumentos de avaliação, utilizados e indicados por nossos professores, voltados para a linguagem e desenvolvimento infantil!  Vamos conhecê-los?

1. Escalas de desenvolvimento

Esse tipo de instrumento contribui com uma visão geral do desenvolvimento das crianças em diferentes aspectos. A partir deles, é possível verificar em qual etapa do desenvolvimento a criança está, elaborar uma intervenção e avaliar o seu progresso ao longo e depois de um período de intervenção.

Entre os inúmeros instrumentos destinados a esse fim podemos citar o Inventário Portage Operacionalizado. O Inventário Portage consiste em uma lista de 580 comportamentos de crianças de 0 a 6 anos e se propõe a avaliar o desenvolvimento motor, linguagem, cognição, socialização e autocuidados. Conta ainda com uma área específica para bebês de 0-4 meses chamada de Estimulação Infantil. O instrumento foi desenvolvido por Psicólogos e adaptado por Psicólogos no Brasil, é amplamente utilizado no Brasil e pode ser aplicado por diferentes profissionais da área da saúde como Fonoaudiólogos, Fisioterapeutas, Terapeutas Ocupacionais uma vez que fornece dados a respeito do desenvolvimento da criança de forma mais global.

Outra escala importante e amplamente utilizada no Brasil é o Denver Developmental Screening Test (DDST). Esse teste foi criado em 1967 na cidade de Denver, EUA e traduzido para diversos idiomas, inclusive para o português. É uma escala de triagem que verifica o atraso no desenvolvimento infantil padronizado, de aplicação fácil e rápida, que abrange diversas áreas do desenvolvimento infantil e pode ser usado em crianças de 0 a 6 anos. É estruturado em 4 setores: o pessoal-social, que envolve o relacionamento com as pessoas, auto cuidado e atividades de vida diária; o motor-adaptativo que verifica a coordenação mão-olho, manipulação de objetos pequenos e solução de problemas; a  linguagem nos seus aspectos auditivo, receptivo e expressivo e o motor-grosseiro que verifica habilidades como andar e sentar.

Um ponto importante sobre a escala Denver é o fato de não ser um instrumento específico de uma área, ou seja, pode ser aplicado por profissionais nas áreas da saúde, educação, ciências sociais e de desenvolvimento humano. Em função de sua praticidade, pode ser utilizado em vários locais, como unidades básicas de saúde, ambulatórios, consultórios, clínicas, unidades pediátricas em hospitais, creches, pré-escolas e serviços especializados em distúrbios do desenvolvimento infantil.

2. Avaliação da Linguagem

Alguns instrumentos têm como objetivo avaliar a linguagem de forma global considerando seus aspectos receptivo e expressivo. Pode ser uma opção interessante iniciar o processo de avaliação dessa forma uma vez que eles irão traçar um perfil geral do desenvolvimento da linguagem da criança e fornecer informações a respeito dos aspectos de deverão ser investigados de forma mais específica.

O ADL 2 – Avaliação do Desenvolvimento da Linguagem tem justamente esse objetivo, ele é muito útil no contexto clínico por traçar um panorama geral da linguagem de crianças em idade pré-escolar, ou seja, de 1 a 6 anos e 11 meses. É um instrumento clínico, fácil e eficiente que fornece informações de Linguagem Expressiva e Compreensiva em todos os níveis da linguagem. Ou seja, a partir dele, é possível avaliar o aspecto semântico, a morfologia e a sintaxe da linguagem, contando, ainda, com figuras direcionadas à observação fonológica e do vocabulário.

O teste inclui um manual do examinador com as explicações detalhadas quanto a forma de aplicação e análise do teste, um kit de objetos utilizados para avaliação nas faixas etárias iniciais e manuais de figuras para a aplicação do teste um para a avaliação da linguagem compreensiva e outro para expressiva. Vale ressaltar que o teste conta ainda com valores de referência para cada faixa etária.

Outro instrumento relevante nesse contexto é o Protocolo de Observação Comportamental – Avaliação de linguagem e aspectos cognitivos – PROC. O PROC tem como objetivo sistematizar a avaliação de crianças pequenas quanto ao desenvolvimento das habilidades cognitivas e comunicativas por meio da observação comportamental. No contexto clínico, tem se mostrado bastante útil na identificação precoce de crianças entre 12 e 48 meses com alterações no desenvolvimento da linguagem e considerando ainda outras esferas do desenvolvimento infantil como como a social, motora e cognitiva. Pode ser usado em crianças com qualquer queixa de linguagem, desde que sem oralidade (não-verbais) ou com oralidade em início de desenvolvimento. Para sua aplicação, o PROC propõe um contexto semiestruturado com gravação em vídeo de uma situação planejada de interação criança-observador, com brinquedos pré-selecionados e tempo de observação sugerido de 30 a 40 minutos.

Por fim, ainda nesse cenário, o Inventário do Desenvolvimento de Habilidades Comunicativas MacArthur – Primeiras palavras e gestos apresenta o objetivo de recolher informações referentes à observação familiar quanto à compreensão, produção lexical e uso de gestos. É composto por duas partes: uma  para crianças de 8 a 16 meses de idade, denominado Palavras e Gestos, e outro para crianças de 16 a 30 meses, denominado Palavras e SentençasConsiderando que muitas crianças buscam o atendimento fonoaudiológico antes mesmo do início da oralidade, sua importância está na possibilidade de verificar de que maneira a criança utiliza os gestos e se eles se apresentam de forma funcional.

3. Avaliação dos níveis lexical e semântico da linguagem infantil

Nesse tópico, podemos incluir uma série de instrumentos que auxiliam o fonoaudiólogo traçar um perfil da aquisição lexical de crianças tanto do ponto de vista expressivo como receptivo. Entre eles, o ABFW tem sidomuito utilizado por clínicos em todo Brasil e auxilia o Fonoaudiólogo na compreensão das manifestações linguísticas da criança avaliada e na elaboração do processo interventivo mais adequado às necessidades individuais. O teste é composto por um livro “ABFW – Teste de Linguagem Infantil” e 12 blocos para avaliação de linguagem, nas áreas de Fonologia, Vocabulário, Fluência e Pragmática. De forma mais específica, o ABFW – Vocabulário tem como objetivo avaliar, em relação ao desenvolvimento normal da linguagem, os mecanismos utilizados pela criança na tentativa de nomear a palavra-alvo. Avalia, portanto, o vocabulário expressivo em 9 campos conceituais, a saber: animais, alimentos, meios de transporte, móveis e utensílios, profissões, locais, formas e cores, brinquedos, e instrumentos musicais, num total de 118 figuras.

Outra opção interessante quando pensamos na avaliação do vocabulário é a Lista de Avaliação de Vocabulário Expressivo (LAVE), adaptada para o português e normatizada para crianças de dois a seis anos de idade. A LAVE foi desenvolvida com o objetivo de identificar o atraso de linguagem em crianças e, a partir da sua identificação precoce, intervir a tempo de obter resultados satisfatórios. A LAVE é composta por duas partes: um questionário em que são pedidas informações sobre a criança e sua família, e uma lista com 309 palavras organizadas em 14 categorias semânticas. Deve ser respondida preferencialmente pela mãe ou responsável mais próximo da criança, que irá preencher o questionário e assinalar na lista quais são as palavras que a criança fala espontaneamente.  O preenchimento também pode ser feito em forma de entrevista conduzida pelo Fonoaudiólogo.

Outra opção amplamente utilizada na clínica fonoaudiológica é o Teste de vocabulário auditivo e teste de vocabulário expressivo que se destina a avaliação precoce de desenvolvimento de vocabulário receptivo e expressivo em crianças na faixa etária dos 18 meses aos 6 anos. Vale destacar que os estímulos utilizados foram selecionados de forma bastante criteriosa possibilitando assim sua aplicação mesmo em crianças menores. Mais uma vez, conhecer o desenvolvimento do vocabulário da criança representa uma etapa fundamental do processo de avaliação em linguagem infantil.

4. Avaliação do nível fonológico e consciência fonológica

Ainda que existam inúmeros instrumentos que se proponham a avaliar esse aspecto da linguagem, nesse tópico vale a pena conhecer o ABFW no seu tópico destinado à avaliação da fonologia. Esse instrumento tem como objetivo levantar o inventário fonético de crianças entre 3 e 12 anos. Para a testagem do sistema fonológico são utilizadas duas provas: a imitação composta por 39 vocábulos e a nomeação composta por 34 figuras. Por meio delas, é possível levantar o inventário fonético da criança e verificar o uso de processos fonológicos. A forma de interpretação e registro dos resultados, facilita a tomada de decisão por parte do clínico que define com maior clareza quais processos fonológicos devem ser priorizados no processo interventivo.

O Instrumento de Avaliação da Consciência Fonoarticulatória – CONFIART se propõe a avaliar a consciência fonoarticulatória, ou seja, a capacidade de identificação e produção dos movimentos articulatórios para um determinado som. Tem indicação para crianças a partir dos 5 anos, não alfabetizadas ou em processo de alfabetização com dificuldades e/ou transtornos de fala e aprendizagem da leitura e escrita. Pode ser utilizado como complemento na investigação da consciência fonológica e como um recurso para a elaboração de estratégias de intervenção clínica. O instrumento é composto por 4 tarefas: identificação da imagem fonoarticulatória a partir do som; produção do som a partir da imagem fonoarticulatória; identificação da imagem fonoarticulatória a partir de palavras e produção de palavras a partir da imagem fonoarticulatória. É, portanto, uma importante ferramenta para os clínicos da área dos transtornos da linguagem escrita.

5. Avaliação do nível morfossintático da linguagem

A sintaxe é outro aspecto fundamental da linguagem e que merece atenção especial no processo de avaliação. Nesse sentido, temos o Protocolo de Avaliação Morfossintática e a Prova de Consciência Sintática (PCS) validada e normatizada para avaliar a habilidade metassintática de escolares de 1ª a 4ª séries do Ensino Fundamental. A PCS é dividida em quatro subteste: julgamento gramatical, correção gramatical de frases agramaticais, correção gramatical de frases agramaticais e assemânticas e categorização de palavras. O subteste de julgamento gramatical prevê que a criança julgue vinte frases faladas pelo aplicador, que podem ter anomalias morfêmicas ou inversões de ordem. Na correção gramatical, a tarefa é corrigir as frases agramaticais faladas pelo aplicador. Quanto à correção gramatical de frases agramaticais e assemânticas, são apresentadas frases com incorreções tanto semânticas quanto gramaticais e o erro gramatical deve ser corrigido sem modificar o erro semântico. No que se refere à categorização de palavras, a criança deve ser capaz de agrupar diferentes palavras escritas, descritas por meio de figuras e faladas pelo avaliador, em três classes gramaticais diferentes: substantivo, adjetivo e verbo.

6. Avaliação do nível pragmático e da narrativa

O nível pragmático da linguagem, diz respeito ao uso da linguagem. Uma vez organizados todos os demais níveis, é necessário definir de forma iremos utilizar a linguagem a fim de comunicar aquilo que desejamos, por exemplo, fazendo pedidos, expressando sentimentos, narrando acontecimentos.

Conforme já mencionado, o ABFW apresenta uma parte destinada à avaliação da pragmática, seu objetivo é realizar a análise dos aspectos funcionais da comunicação, ou seja, a investigação do uso da linguagem. A aplicação deste teste consiste na gravação em vídeo de um segmento de trinta minutos de interação com um adulto. O registro dos resultados é então realizado no protocolo específico para a transcrição de dos dados referentes à criança.

Outro instrumento que se propõe a avaliar o aspecto pragmático da linguagem é o Protocolo de Habilidades Comunicativas Verbais – HCV. A versão original foi elaborada pela Dra. Simone Lopes-Herrera, em 2000, com base em estudos de referência nessa área. Em 2013, com o objetivo de facilitar sua aplicação ele foi adaptado e validado para o formato de checklist em parceria com a Fga. Camilla Abe. O HCV se propõe a avaliar as habilidades comunicativas verbais como por exemplo as habilidades dialógicas e a narrativa. Sua aplicação acontece a partir da gravação de um momento de interação espontânea da criança com um adulto seja o próprio fonoaudiólogo ou mesmo os pais ou responsáveis. Vale a pena destacar que não há limite de idade para sua aplicação sendo possível traçar, até mesmo, o perfil pragmático de adultos, por exemplo.  A proposta é que o HCV seja utilizado na avaliação inicial e nas posteriores, para que possa ser uma medida de comparação da criança com ela mesma.

Por fim, a narrativa oral de história trata-se de uma habilidade de grande complexidade uma vez que requer preservação de capacidades linguísticas e cognitivas. A habilidade narrativa é descrita em crianças com atraso do desenvolvimento da linguagem por produções de histórias mais curtas, com menor complexidade, comprometimento quanto à sintaxe ao longo dos enunciados, além de déficits na organização das estruturas que caracterizam uma narrativa oral.

Nesse sentido, o aplicativo Narrando e Aprendendo, desenvolvido por especialistas em Fonoaudiologia, em trabalho orientado pela Profª Drª Simone Ap. Lopes-Herrera, auxilia tanto no processo de avaliação quanto intervenção da narrativa. A partir dele, é possível que o fonoaudiólogo avalie e acompanhe o processo evolutivo das crianças e gere relatórios completos através do modelo de avaliação criado especificamente para o APP.

Muitas vezes, saber qual a melhor opção para cada caso, aplicar e interpretar os resultados cada um desses testes pode gerar dúvidas comprometer a qualidade da avaliação realizada. Foi pensando nisso que a TK montou um curso específico sobre a avaliação em linguagem infantil? É o AVALIOAvaliação de Linguagem Oral Infantil. Lá, professores especialistas irão discutir os principais aspectos envolvidos no processo de avaliação, os instrumentos disponíveis, a interpretação dos resultados e a elaboração do relatório de avaliação. Vale a pena conferir!

Me. Camilla Guarnieri

Coordenadora Científico-pedagógico da TECHKNOWLEDGE

Fonoaudióloga formada pela Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo. Mestre e Doutoranda em Fonoaudiologia pela Faculdade de Odontologia de Bauru, com período sanduíche no exterior na university of South Florida (USF).

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