Crianças podem ter o diagnóstico fonoaudiológico de disartria?

Diagnóstico de disartria em crianças

A disartria é um transtorno neurológico motor da fala em que ocorrem alterações na sucessão dos sons, afetando sua articulação correta. Essa dificuldade resulta de um distúrbio no controle neuromuscular dos mecanismos de fala e podem comprometer as funções de:

  • fonação;
  • respiração;
  • articulação;
  • ressonância;
  • prosódia de forma isolada ou associada.

Usualmente causada por lesão no sistema nervoso central ou periférico, as características da disartria são bastante variáveis e, em decorrência disso, ela recebe diferentes classificações que consideram sua etiologia e local de lesão. A classificação mais conhecida e utilizada hoje foi proposta por Darley, Aronson e Brown em 1969, e divide as disartrias em:

  • atáxica;
  • flácida;
  • espástica;
  • hipocinética;
  • hipercinética.

De modo geral, a fala de pessoas disártricas é caracterizada pela imprecisão e incoordenação dos movimentos dos músculos da fala, resultante de déficits neuromusculares, como fraqueza ou excesso de força, com diminuição da amplitude de movimento e velocidade.

Tudo isso, a depender da gravidade de cada quadro, torna a fala ininteligível, levando ao prejuízo funcional e limitação da participação do indivíduo em diferentes atividades.

É comum que a disartria seja associada a pessoas idosas ou adultos que após um trauma ou lesão neurológica, apresentaram dificuldades relacionadas à fala. De fato, um dos principais fatores etiológicos da disartria é o Acidente Vascular Encefálico (AVE), amplamente divulgado e com maior incidência nessa população.

Contudo, o AVE, apesar de ser uma causa comum, não é a única responsável por quadros de disartria. Entre as causas que levam à disartria adquirida podemos destacar:

  • tumores cerebrais;
  • Traumatismo Cranioencefálico (TCE);
  • doenças infecciosas, como meningite e encefalite.

Existem outras situações em que as alterações musculares que levam a esse quadro estão presentes desde o nascimento. São as chamadas causas congênitas e, entre elas, podemos destacar a Paralisia Cerebral (PC) e outras condições genéticas como a Síndrome de Down.

Considerando as possíveis etiologias apresentadas, fica o alerta: a disartria não é um quadro exclusivo de adultos e idosos. Crianças podem receber esse diagnóstico, seja por etiologia congênita ou adquirida, e sendo muitas vezes subdiagnosticada nessa população diante da escassez de estudo e informações nesse contexto.

Neste texto, você encontra informações importantes que vão te ajudar a compreender as particularidades da disartria na população infantil e a importância do seu diagnóstico e intervenção adequada. Vamos conferir?

Disartria em crianças

A Disartria Infantil (DI) é uma entre possíveis quadros que fazem parte dos Transtornos Motores da Fala (TMF). Assim como no adulto, é caracterizada por distorções e imprecisões na produção dos sons da fala em decorrência de falhas na etapa de execução da fala. Mas o que isso significa?

A fala para ser adequadamente produzida envolve uma série de processos cognitivos e linguísticos relacionados à elaboração da mensagem que desejamos transmitir e processos motores de produção de fala que compreendem o planejamento, a programação e execução dos movimentos necessários à produção de fala.

Na disartria, por mais que a criança consiga elaborar adequadamente uma mensagem, a depender do seu desenvolvimento cognitivo e de linguagem, selecionando as estruturas que deverão se mover para a produção de determinados sons, programe os parâmetros de tempo, velocidade e direção em que esses movimentos devem acontecer, diante dos déficits neuromusculares característicos desse diagnóstico, como a fraqueza ou excesso de força, ela não executa de forma adequada o que foi planejado e programado em etapas anteriores.

Essa é uma informação de extrema relevância por ser o ponto-chave do diagnóstico diferencial entre outros TMF, como a Apraxia de Fala na Infância (AFI), em que as dificuldades estão relacionadas às etapas de planejamento e programação motoras da fala.

A depender da gravidade de cada caso, na DI as dificuldades podem ir de leves a severas, portanto, com comprometendo variáveis de fala. Quanto maior o comprometimento neuromuscular, mais comprometida estará a fala e outras funções poderão ser impactadas como é o caso da:

  • fonação;
  • prosódia;
  • prosódia;
  • articulação;
  • ressonância.

É comum que essas crianças apresentem dificuldades relacionadas à alimentação como, déficits na mastigação e deglutição.

Além das causas já apresentadas, nas quais a DI tem origem conhecida, seja adquirida ou congênita, existem casos nos quais sua origem não pode ser identificada. É o que chamamos de DI idiopática. Contudo, a literatura voltada a estudar esse tópico é extremamente escassa até o momento.

A disartria não é um quadro comum em crianças. Um estudo recente aponta que 13% de crianças com alguma desordem complexa do neurodesenvolvimento podem receber esse diagnóstico. Já entre crianças com alterações de fala sem origem conhecida a prevalência estimada é de 1 a cada 1000 indivíduos.

Porque o diagnóstico diferencial é tão importante nesses casos?

Mas se a disartria é tão rara, porque seu diagnóstico e, principalmente, o diagnóstico diferencial entre outros TMF é tão importante?

Como já discutimos, uma criança com disartria pode apresentar grande comprometimento na produção de fala, o que por consequência, impactará negativamente o desenvolvimento de outras habilidades, como as interativas e sociais.

Sabemos que qualquer dificuldade que prejudique a comunicação da criança deve ser diagnosticada quanto antes de modo que a intervenção adequada seja oferecida, reduzindo o impacto negativo dessas alterações na vida da criança.

E, por falar em intervenção, o primeiro aspecto que precisa ser considerado diz respeito ao fato de que nos TMF a intervenção deve ser especializada e com foco nos princípios do aprendizado motor. Isso significa que, assim como na AFI ou no Atraso Motor de Fala, uma criança com disartria precisa de intervenção específica voltada ao treino de fala, que deve considerar princípios como:

  • prática intensiva;
  • esquemas de feedback;
  • uso de pistas multissensoriais.

Contudo, na disartria outro aspecto deve ser considerado quando pensamos nos déficits neuromusculares. Em muitos casos, trabalhar a mobilidade e o tônus de estruturas como os lábios, línguas e bochecha, assim como a regulação de funções como a respiração, a mastigação e a deglutição, na perspectiva da motricidade orofacial, podem ser não só necessário como imprescindível. Esses aspectos dificilmente serão trabalhados em outros TMF, e, quando essa necessidade não é adequadamente identificada, a evolução da criança fica comprometida.

Temos ainda muito o que avançar na compreensão não só da disartria, mas dos TMF. O Fonoaudiólogo que se propõe a atuar com quadros de TMF deve se atentar a cada uma dessas particularidades a fim de conduzir a avaliação e intervenção de modo a contribuir com a evolução de cada criança.

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Referências:

DARLEY, F. L.; ARONSON, A. E.; BROWN, J. R. Clusters of deviant speech dimensions in the dysarthrias. Journal of speech and hearing research, v. 12, n. 3, p. 462-496, 1969. SHRIBERG, L. D.; KWIATKOWSKI, J.; MABIE, H. L. Estimates of the prevalence of motor speech disorders in children with idiopathic speech delay. Clinical linguistics & phonetics, v. 33, n. 8, p. 679-706, 2019. SHRIBERG, L..; STRAND, E. A.; JAKIELSKIC, K. J.; MABIE, H.L. Estimates of the prevalence of speech and motor speech disorders in persons with complex neurodevelopmental disorders. Clinical linguistics & phonetics, v. 33, n. 8, p. 707-736, 2019.

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