Como é a Linguagem das Pessoas com TEA?

O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é considerado uma síndrome comportamental que afeta o desempenho social, o comportamento e a comunicação e embora ainda não se saiba exatamente qual é a sua origem ou causa, muitos estudos têm sugerido a presença de fatores genéticos e neurobiológicos que podem estar associados à essa condição. O TEA tem maior incidência no sexo masculino em uma proporção de 4,2 nascimentos para cada um do sexo feminino, sendo a prevalência total estimada em um em cada 88 nascimentos, o que coloca o TEA entre os transtornos do desenvolvimento mais comuns.

Ao longo do tempo, a classificação e critérios diagnósticos para o TEA vem sendo modificado conforme a avançamos na compreensão acerca desse tema. Na mais recente atualização, realizada em 2013, e disponível no DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, sigla em inglês para Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) o TEA passou a ser descrito como um espectros de características que variam em grau de manifestação, sendo considerado então um quadro que pode variar muito de indivíduo para indivíduo.

Independente do grau de comprometimento, esse manual determina uma díade diagnóstica, ou seja, aspectos que necessariamente precisam estar alterados em quadros de TEA e que corresponde ao prejuízo nas habilidades de interação social e comunicação e à presença de comportamentos, interesses e atividades estereotipados.

Podemos perceber que a comunicação como um todo e a linguagem da pessoa com TEA são aspectos que merecem atenção. Seja com maior ou menor comprometimento, prejuízos na linguagem e comunicação são parte desse quadro. Considerando a linguagem como tudo aquilo que nos torna seres capazes interagir, expressar desejos, sentimentos e pensamentos, qualquer alteração que prejudique essas habilidades vai ter um grande impacto no desenvolvimento e qualidade de vida de qualquer pessoa.

Nesse texto conhecer as principais características relacionadas à linguagem no TEA.  Vamos conferir?

A linguagem e seu desenvolvimento  

A linguagem é uma habilidade exclusiva da espécie humana que permite a cada indivíduo representar e expressar suas experiências de vida, seus pensamentos, desejos e dúvidas, além de ser uma ferramenta indispensável no processo de aquisição, produção e transmissão do conhecimento. A linguagem vai além da fala, estando presente nos gestos, expressões faciais, comportamentos e até na forma como interagimos com as outras pessoas.

Essa habilidade é desenvolvida e aprimorada ao longo de toda a vida, mas, principalmente nas etapas iniciais do desenvolvimento nas quais as crianças têm uma ampla capacidade de adquirir e aprender novas habilidades. Esse processo acontece de forma muito natural durante a interação das crianças com seus pares, mas estão condicionadas à algumas habilidades da própria criança.

No caso de crianças com TEA, o desenvolvimento das habilidades de linguagem e comunicação é prejudicado e pode estar alterado de formas variáveis. Na próxima sessão, vamos entender quais características podem ser observadas nesse contexto.

A linguagem no TEA

A linguagem em pessoas com TEA pode estar alterada de diferentes formas variando também no grau de comprometimento e podem ser observadas em todos os aspectos da comunicação. Nesse espectro vamos observar tanto crianças que não se comunicam por meio da fala, como aquelas que embora sejam capazes de elaborar um discurso tem dificuldade em lidar com regras sociais tornando a comunicação pouco funcional.

Crianças com TEA podem apresentar muita dificuldade no desenvolvimento de fala e linguagem, podem demorar muito para começar a falar e quando isso acontece, a linguagem pode ser utilizada de forma pouco funcional, apresentando ausência ou redução da fala espontânea mesmo em situações de interação.

Podem ser observadas dificuldades na elaboração de frases e no emprego de estruturas gramaticais mais complexas, uso inadequados de pronomes, alteração no rimo da fala o que pode torná-la monótona ou robótica, além da possibilidade da ocorrência e ecolalias. Vale lembrar que o uso de gestos e expressões facial também é prejudicado nessa população!

Outras habilidades como a de atenção podem estar alteradas e irão refletir também na comunicação justamente por prejudicar a interação da pessoa com TEA com os demais. Aliás, as dificuldades sociais representam uma barreira importante à comunicação como um todo!

            Pessoas com TEA tendem a ter dificuldade em estabelecer com as outras pessoas relações fundamentais ao diálogo como iniciar e manter uma conversa, trocar turnos durante a comunicação e adequar sua fala ao contexto e ao interesse do seu interlocutor.

            Tem dificuldade de compreender conceitos abstratos, ironias e figuras de linguagem, se atendo ao significado das palavras de forma mais rígida. Existe, portanto, uma dificuldade de simbolização que pode inclusive ser observada na brincadeira da criança com TEA que tende a ser menos estruturada.

            Por ser tratar de uma alteração comportamental, o diagnóstico nos casos de TEA é realizado com base na observação dessas e de outras características descritas no DSM-V. Portanto, não existem exames, como os de imagem, por exemplo, capazes de auxiliar nesse diagnóstico até o momento. Quanto antes for feito o diagnóstico, ou pelo menos, for identificado o risco para autismo, melhor! A identificação precoce possibilita também a intervenção precoce e ela vai fazer toda a diferença na evolução dessas crianças.

Importância da intervenção precoce nos casos de TEA

O nosso cérebro é formado por uma rede de circuitos responsável por conduzir informações e permitir a realização de qualquer tarefa ou habilidade. Portanto, essa rede formada a partir da conexão dos neurônios também é responsável pelo desenvolvimento e uso da linguagem.

Acontece que com o passar do tempo, o cérebro passa a reconhecer quais dessas conexões são utilizadas com maior frequência e dá a elas uma espécie de reforço. Por outro lado, aquelas conexões que não estão sendo utilizadas são desativadas e a esse mecanismo de exclusão damos o nome de “poda neural”.

Embora o “corte” aconteça diversas vezes ao longo da vida, acontece de forma mais intensa até os 3 anos de idade que faz com que esse período inicial na vida de qualquer criança seja fundamental no estabelecimento de conexões que irão possibilitar o desenvolvimento de habilidades tais como a linguagem.

Nesse sentido, fica fácil compreender por que a estimulação precoce é tão importante nos casos de TEA! Não significa que crianças maiores não vão apresentar uma evolução significativa, mas iniciar o acompanhamento adequado tão logo se identifique uma suspeita ou risco para o TEA pode tornar a evolução mais rápida e eficiente.

Importância da tríade família, escola e profissionais da reabilitação no sucesso da intervenção em linguagem no TEA

O trabalho de intervenção voltado para pessoas com TEA envolve a participação de uma série de profissionais que irão favorecer o desenvolvimento de uma ampla variedade de habilidades. O fonoaudiólogo por exemplo, vai se dedicar à intervenção voltada para o desenvolvimento de linguagem e das habilidades comunicativas, o psicólogo é o profissional responsável por trabalhar o comportamento da criança sendo fundamental também no manejo com os pais, o Terapeuta Ocupacional, além de trabalhar aspectos sensoriais que podem estar alterados, vai favorecer o desenvolvimento de habilidades de vida diária permitindo à pessoa com TEA um maior nível de independência. Médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, assistentes sociais, todos esses profissionais podem estar envolvimentos nesse processo de intervenção.

Vale a pensa sempre lembrar, contudo, que mesmo naqueles casos em que a criança realiza a intervenção de forma intensiva, durante muitas horas, o que nem sempre é uma realidade no nosso país, ela vai sempre passar o maior tempo do seu dia em casa, com os pais e na escola.

Por essa razão, a intervenção em casos de TEA só vai atingir a máxima eficiência quando, os profissionais especialistas na reabilitação da pessoa com TEA trabalharem em conjunto com os professores, pais e cuidadores, para que tudo o que for trabalhado dentro do consultório possa ser utilizado nos demais contextos em que a criança está inserida.

E para você que deseja conhecer mais sobre esse assunto, a TK preparou mais um curso sobre o tema. Trata-se do Curso Teórico Prático Como Intervir nas Ecolalias e Estereotipias Verbais. Esse curso apresenta versões para pais, educadores e fonoaudiólogos justamente com o objetivo de fortalecer a rede de cuidado no TEA!

Referências:

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition (DSM-V). Arlington, VA: American Psychiatric Association, 2013. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com Transtornos do Espectro do Autismo. Brasília, 2013. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diretrizes_atencao_reabilitacao_pessoa_autismo.pdf

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