Transtornos Motores da Fala – Desafio no Diagnóstico Diferencial

Atualmente, muito se tem falado a respeito dos Transtornos Motores da Fala (TMF). Muitos estudos têm sido conduzidos no sentido de melhor compreender e caracterizar esse grupo diagnóstico dentro de um grupo maior que é o dos transtornos da fala e da linguagem e, mais especificamente, dos transtornos dos sons da fala. No entanto, de modo geral, crianças com transtornos motores da fala apresentam erros que tornam sua comunicação pouco eficiente, de formam que poucos a compreendem quando falam e resultam em prejuízos socioemocionais, podendo ter impacto importante do desenvolvimento de outras habilidades, tais como a leitura e a escrita.

A Apraxia de Fala na Infância (AFI), o Atraso Motor de Fala (AMF) e a Disartria compõem os principais quadros do grupo dos transtornos motores da fala, embora seja muito frequente nos últimos anos – dentro da Fonoaudiologia – ouvirmos falar mais da Apraxia de Fala na Infância. Apesar de serem decorrentes de problemas na etapa motora de produção de fala e apresentarem características semelhantes, a apraxia de fala na infância, o atraso motor de fala e a disartria diferem em muitos aspectos que devem ser considerados no planejamento da intervenção fonoaudiológica e, por isso, o diagnóstico diferencial dos transtornos motores da fala é tão importante.

Afinal, o que torna o diagnóstico diferencial dos transtornos motores da fala tão importante? Nesse texto, vamos discutir alguns pontos-chave para melhor compreender os transtornos motores da fala e responder à essa pergunta! Vamos começar?

A fala

A fala pode ser entendida como o resultado de uma série de etapas, envolvendo diferentes sistemas e estruturas, e que ocorre de forma coordenada desde a formulação do que se pretende dizer, até a produção dos sons e palavras propriamente dita. Por isso, a avaliação da fala nunca pode ser feita isoladamente à da linguagem. Portanto, os sistemas cognitivo, linguístico e motor, participam ativamente desse processo que depende ainda da integridade das estruturas orais e do sistema respiratório. Mas afinal, como a fala acontece?

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Em primeiro lugar, pensamos naquilo que desejamos falar, selecionamos as palavras e as organizamos em frases, pensamos ainda nos sons necessários à produção dessa mensagem e esses momentos correspondem às etapas cognitiva e linguística da produção de fala.

Depois de definir exatamente o que será dito, precisamos organizar a forma como esses sons serão produzidos. Nesse momento nós iremos selecionar quais estruturas serão utilizadas, planejamos e programamos de que forma cada uma delas irá se movimentar, a direção, a velocidade e a força do movimento, e uma vez definidos esses parâmetros, iniciamos a etapa de execução desses movimentos e temos então, a fala. A esse processo de planejamento, programação e execução da fala, damos o nome de etapa motora.

Com essa perspectiva, fica fácil compreender como os problemas de fala acontecem. Eles envolvem uma ou mais falhas em algumas das etapas descritas e quando esses “problemas” acontecem na etapa motora (panejamento, programação e/ou execução), podemos ter como resultado um dos Transtornos Motores da Fala (TMF).

Os Transtornos motores de fala (TMFs)

Existe um crescente interesse em torno dos Transtornos Motores da Fala. De uma forma geral, podemos observar nesses quadros erros de fala caracterizados por imprecisão e/ou distorções espaço-temporais na produção de vogais e consoantes, além de alterações prosódicas e que podem ter ou não uma origem conhecida. Esse grande grupo é então composto por diagnósticos específicos que diferem em origem e características. Vamos conversar sobre cada um deles?

A Apraxia de Fala da Infância é, entre os Transtornos Motores da Fala, o mais conhecido e, pensando nas etapas motoras de produção de fala, ocorre por falhas nas etapas de planejamento e programação da fala, tendo como resultado erros inconsistentes na produção de consoantes e vogais, coarticulação inadequada na transição entre sons e sílabas e prosódia inapropriada, entre outras características que podem ser observadas. Aqui na TK fizemos já até Lives e Webinars sobre o tema e indicamos várias leituras entre livros, dissertações, teses, artigos científicos, relatórios técnicos de entidades científicas e sites de entidades e associações da área. Fica aqui o link para você ver nossas dicas.

O Atraso Motor de Fala, por sua vez, passou a ser estudado mais recentemente e, de acordo com que sugerem os estudos, ocorre por falhas na etapa de execução e pode ser caracterizado por imprecisões, fala instável e alterações de voz e prosódia, sendo o transtorno motor de fala mais comumente observado em na clínica pediátrica.

Por fim, a Disartria, também está associada a falhas na etapa de execução motora da fala, devido à um distúrbio no controle neuromuscular dos mecanismos da fala que pode comprometer as funções de respiração, fonação, ressonância, articulação e prosódia. Não podemos nos esquecer ainda possibilidade da coocorrência entre Apraxia de Fala na Infância e Disartria, resultado de falhas nas etapas de planejamento, programação e execução motoras da fala.

Diagnóstico diferencial dos Transtornos Motores da Fala

Pela descrição dos quadros que compõe os Transtornos Motores da Fala, já dá para deduzir que o diagnóstico diferencial não é uma tarefa fácil. Eles apresentam características de fala comuns ou muito semelhantes, mas que acontecem por razões e processos diferentes. Pensando que as dificuldades aparecem em momentos diferentes da produção de fala, podemos também refletir que o prognóstico e as características da intervenção também podem ser diferentes para cada um deles.

O diagnóstico dos Transtornos Motores da Fala deve ser feito de forma muito cuidadosa, por um fonoaudiólogo especializado. Pela complexidade desses quadros, é natural que esse diagnóstico diferencial da fala não aconteça imediatamente após o processo de avaliação inicial e, muitas vezes, somente após um período de intervenção diagnóstica será possível definir, exatamente, com que tipo de transtorno motor da fala estamos trabalhando. Esse é um momento de extrema importância e que irá refletir em todo o processo interventivo realizado posteriormente.

Mas afinal, porque o diagnóstico diferencial dos Transtornos Motores da Fala é tão importante?

Saiba mais sobre A importância do fonoaudiólogo nos tratamentos dos Transtornos Motores da Fala, como na Apraxia de Fala na Infância.

Importância do diagnóstico diferencial dos Transtornos Motores da Fala

Em primeiro lugar, pela questão da evolução e o prognóstico. Dentre todos os possíveis Transtornos Motores da Fala, crianças com Atraso Motor da Fala tem melhor prognóstico e costumam evoluir mais rapidamente no processo interventivo. Já crianças com Apraxia de Fala na Infância, tendem a ter uma evolução mais lenta, assim como nos casos mais graves de Disartria. Isso influencia na definição das estratégias de intervenção, na quantidade e tempo de duração das sessões de intervenção fonoaudiológica, nas condutas terapêuticas e nos faz pensar na possibilidade de fornecer à criança outras formas de comunicação alternativa ou aumentativa, que não a fala, até que ela tenha condições de se fazer entender por esse meio verbal de forma mais inteligível. A comunicação suplementar alternativa pode ser, portanto, um recurso interessante nos casos se evolução lenta e prognóstico menos favorável para fala.

Em segundo lugar os objetivos da intervenção da Fonoaudiologia. Vale ressaltar que, para todos os Transtornos Motores da Fala, a intervenção deve estar pautada nos princípios da Terapia Motora de Fala, que pressupõe, entre outras coisas, o treino com alvos de fala de forma funcional. Contudo, cada um desses quadros apresenta particularidades que precisam ser consideradas no planejamento terapêutico. Crianças com disartria, por exemplo, em decorrência das alterações no controle neuromuscular, podem apresentar fraqueza ou excesso de força nas estruturas necessárias à fala (como língua, lábios, bochechas), sendo necessário que os aspectos miofaciais sejam trabalhados, a fim de favorecer uma melhor mobilidade e funcionalidade dessas estruturas para a execução de fala e é imprescindível que o planejamento terapêutico contemple esse aspecto. Além disso, muitos de Transtornos Motores da Fala podem vir associados à Transtornos de Linguagem, que também precisam ser considerados e focos de intervenção específica.

Outro ponto importante em se tratando do diagnóstico diferencial é a frequência e dosagem das sessões. Estudos tem apontado que crianças com Atraso Motor de Fala apresentam evolução significativa mesmo com uma frequência semanal menor. Por outro lado, na Apraxia de Fala na Infância, a intervenção intensiva apresenta melhores resultados.
Outros parâmetros da intervenção vêm sendo estudados como a forma de apresentação de estímulos, o número de alvos de fala trabalhados e forma de feedback oferecido à criança a fim de melhor compreender como cada um dos quadros descritos responde em condições diferentes e melhor determinar as diretrizes de intervenção específicas a cada um dos Transtornos Motores da Fala.

Não restam dúvidas que, mais uma vez, o diagnóstico diferencial se faz imprescindível nos Transtornos Motores da Fala e deve ser feito com calma e cautela por profissionais da Fonoaudiologia aprodundados nessa área para que, dessa forma, possamos tornar a comunicação das crianças cada vez mais funcional e contribuir ainda mais com sua qualidade de vida!

Dra. Camilla Guarnieri
CRFa 2-18977
Fga Ms Thaís Rosa dos Santos
CRFa. 2-19167

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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