Qual o papel do fonoaudiólogo no atendimento à pessoa com fissura labiopalatina?

A fissura labiopalatina é uma malformação congênita que ocorre em decorrência de uma alteração na fusão dos processos embrionários caracterizada pela interrupção total ou parcial dos tecidos do lábio e/ou palato (“céu da boca”). Ao longo do desenvolvimento embrionário, é necessário que ocorra a união de determinadas estruturas que, posteriormente, irão formar o lábio e o palato. Quando, ainda no início da vida intrauterina, esse processo não ocorre da forma adequada e essas estruturas permanecem separadas teremos então as fissuras labiopalatinas. Essa malformação apresenta uma grande variabilidade a depender das estruturas que são afetadas e da amplitude dessas alterações e, cada uma dessas condições receberá então uma classificação específica.

São muitas as possíveis dificuldades enfrentadas por indivíduos com fissura labiopalatina, envolvendo aspectos estéticos, funcionais, psicológicos e sociais. Funções como a alimentação e a comunicação podem sofrer um impacto variado em função do tipo de fissura, do comprometimento das estruturas e do ambiente no qual a criança está inserida. Isso acontece uma vez que as estruturas envolvidas desempenham papéis fundamentais nessas tarefas e por modificarem a configuração da cavidade oral, levam a criança a buscar compensações e adaptações no processo de desenvolvimento.

Algumas das dificuldades de fala de crianças com fissura palatina são as distorções na produção de determinados sons, o uso de articulações compensatórias e o escape nasal de ar conhecido como hipernasalidade. Esse conjunto de alterações pode fazer com que a fala seja mais difícil de se compreender prejudicando como um todo a comunicação, principalmente de crianças em etapa de aquisição de linguagem que, naturalmente, já apresentam erros de fala previstos no desenvolvimento normal.

Sabemos que o tratamento da fissura labiopalatina envolve uma equipe multidisciplinar que tem por objetivo minimizar o impacto das alterações inerentes a essa condição na qualidade de vida das crianças e de seus familiares, sendo o fonoaudiólogo um dos profissionais que fazem parte dela. Você sabe qual é o papel desse profissional nesse contexto?

Preparamos esse texto para que você possa conhecer um pouco mais a respeito da atuação do fonoaudiólogo, junto à equipe multiprofissional em casos de fissura labiopalatina. Vamos saber mais?

Como o fonoaudiólogo atua em casos de fissura labiopalatina

O fonoaudiólogo é o profissional que atua na prevenção, avaliação, diagnóstico e tratamento de alterações de linguagem, fala, audição, fluência, deglutição, mastigação e respiração. Dentro da equipe de reabilitação de indivíduos com fissura tem papel fundamental na promoção da comunicação e alimentação, e no gerenciamento de distúrbios nessa área, cabendo a esse profissional tanto a reabilitação das funções, a prevenção das alterações, como também o trabalho com pais, cuidadores e educadores.

O tratamento de indivíduos com fissura palatina é longo e deve ser iniciado tão logo se identifique a alteração, mesmo no período intrauterino. Já desde essa etapa, pode ser dado início a um processo de orientação aos pais e futuros cuidadores a fim de fornecer informações corretas, trabalhar o medo e a insegurança, abordar as possíveis dificuldades enfrentadas e quais são as atitudes positivas que irão favorecer o desenvolvimento da criança. Nesse contexto, o fonoaudiólogo tem um papel importante em grupos de intervenção precoce e promoção de saúde para preparar os pais e cuidadores a fim de orientar quanto à aquisição de fala e linguagem e prevenir as possíveis alterações. O acompanhamento em grupos de pais e cuidadores pode ser mantido ao longo de todo o processo de tratamento das crianças, justamente por ser uma ferramenta muito eficaz que proporciona a troca de experiência e empodera os pais no cuidado com seus filhos.

Já ao nascimento, o fonoaudiólogo atua no sentido de encontrar a melhor forma de alimentação para o recém-nascido, isso porque, a depender do tipo de fissura, pode ser necessário realizar alguns ajustes no posicionamento da criança e na forma de oferta a fim de que ela se alimente de forma efetiva e segura. O aleitamento materno, por exemplo, pode ser mantido nesses casos, mas isso só será possível com o acompanhamento adequado e especializado.

O processo de reabilitação de crianças com fissura labiopalatina é longo sendo realizado em etapas cirúrgicas que respeitam o crescimento da criança. Em cada uma dessas etapas, ocorrem modificações anatômicas buscando o fechamento da fissura, e, nesse contexto, o fonoaudiólogo irá trabalhar com a criança para que ela aprenda utilizar essas estruturas de forma adequada favorecendo o desenvolvimento de fala e linguagem e prevenindo o aparecimento de padrões de fala atípicos que poderão prejudicar sua comunicação como um todo.

Como e por que é tão importante o fonoaudiólogo estar preparado para atender esses casos

Os casos de fissura labiopalatina envolvem uma série de particularidades que precisam ser compreendidas por qualquer profissional que se proponha a atuar com essa população. Começando pelo conhecimento da anatomia e da função das estruturas envolvidas, o fonoaudiólogo precisa saber o que esperar e de que forma intervir nesses casos.

Conforme já foi dito, essa intervenção envolve uma equipe multiprofissional e uma série de etapas cirúrgicas ou não que terão impacto direto na intervenção. É importante que o fonoaudiólogo conheça o papel de cada um dos profissionais da equipe, que compreenda cada uma das etapas que serão seguidas e o que cada uma dessas etapas irão exigir em termos de intervenção para o sucesso terapêutico, atuando sempre de forma conjunta e integrada.

Mais especificamente quanto às funções de fala e alimentação, as dificuldades apresentadas por essa população são bastante específicas. Os tipos de erros na fala e as formas que a criança encontra para compensar esses erros, por exemplo, se não forem abordadas de maneira especializada não irão de fato ajudar a criança a superar essas dificuldades.

Portanto, o fonoaudiólogo que se propõe a atuar com essa população, necessariamente precisa saber como avaliar, construir um plano terapêutico integrado à equipe e intervir garantir ao indivíduo um atendimento de acordo com suas necessidades, minimizando suas dificuldades e contribuindo com sua qualidade de vida!

Para que um trabalho especializado seja conduzido, é importante que o profissional busque o conhecimento necessário a partir de cursos e formações e que esteja atualizado quanto aos avanços na área!

Pensando em contribuir com informações de qualidade sobre o assunto, a TK trouxe o curso de extensão “Atuação Fonoaudiológica na Fissura Labiopalatina”. Ele será ministrado pela Profa. Me. Daniela Barbosa, que é fonoaudióloga (CRFa 2-15230), mestre em Ciências da Reabilitação pelo HRAC-USP, doutoranda na FM – USP, especialista em Motricidade Orofacial e atua clinicamente e em pesquisa na área de desenvolvimento de recursos digitais para terapia e fissura labiopalatina.

O curso vai abordar a avaliação e a intervenção nas Fissuras Labiopalatinas, o raciocínio clínico e interdisciplinar nas diferentes etapas do tratamento desta malformação craniofacial e atualizações sobre as Evidências Científicas no tema. Ele é voltado a Fonoaudiólogos e estudantes de Fonoaudiologia e iniciará em 17/03/2021, sendo que ele tem carga-horária de 20h.

Então, se você quer aprimorar o seu conhecimento nesse assunto, não perca essa oportunidade! Vem para a TK!

Referências utilizadas

CORRÊA, Ana Paula Carvalho. Desenvolvimento da fala no bebê com fissura labiopalatina: mídia para estudantes de fonoaudiologia. 2016. Dissertação (Mestrado em Fissuras Orofaciais) – Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais, Universidade de São Paulo, Bauru, 2016. doi:10.11606/D.61.2016.tde-19102016-172929. Acesso em: 2021-03-14. Disponível em https://teses.usp.br/teses/disponiveis/61/61132/tde-19102016-172929/publico/AnaPaulaCarvalhoCorreaMestrado.pdf

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